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Mostrando postagens de julho, 2016

NO ENTANTO, NÃO HÁ GALINHA EM MEU QUINTAL

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Raulzito não dava bola pra visita estranha na sala e, fingindo ignorá-la, passava a vista no jornal, onde lia notícias com as quais não se importava. Indignado, reclamava, bem ao seu estilo: "mas, no entanto, não há galinha em meu quintal". Quando falta o básico, é difícil transcender... O galinheiro do Brasil está à míngua, mas não faltam raposas. Às vésperas de um megaevento internacional, o país fica como o anfitrião que buscou arrumar a casa para receber visitas. Mandou pintar o imóvel, comprar novo aparelho de jantar, forrar o velho sofá da sala e consertar o assento do vaso sanitário, que estava solto. À chegada das visitas, muita ansiedade, a preocupação de receber bem e não passar vergonha. Mas é nesse momento que a dura realidade aparece: a parede tem infiltrações, os recursos para o novo aparelho de jantar foram usados na compra de canecas em uma loja de 1,99, o sofá foi forrado com pano de chita sobre as molas aparentes e o vaso sanitário está entupido... É pro...

TOMARA QUE DEUS SEJA BRASILEIRO

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Não é para agourar, mas os facínoras do Estado Islâmico têm tudo para ver o Brasil como a bola da vez. É um país que tenta a todo custo sublimar seu complexo de vira-latas e substituí-lo por uma megalomania que só o deixa mais vulnerável. Os arroubos nacionalistas dos militares renasceram justamente no "nunca antes na história desse país" de Luiz Inácio. Veio a Copa do Mundo com suas obras faraônicas e indecentemente superfaturadas e agora estamos às portas das Olimpíadas, à custa de cifras bilionárias em uma terra arrasada, sob um governo interino e com a crème de la crème da elite política e empresarial com medo de ser acordada às 6 da manhã por agentes da Federal. O Brasil é um país que teria tudo para dar certo, mas insiste em andar na contramão. Nada funciona a contento, os serviços públicos são indecentes, em contraste com a maior carga tributária do planeta. Diariamente, repetem-se as notícias de desvios, aditivos safados em obras públicas, licitações fraudadas...

A POLÍTICA COMO ELA É

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Quem estudou a história recente do Brasil sabe que, em 1985, nos estertores da ditadura militar, a presidência da república foi disputada por Tancredo Neves (PMDB) e Paulo Salim Maluf (PDS), via eleição indireta. No imaginário maniqueísta, Tancredo, que venceu, mas morreu antes de tomar posse, eternizou-se como um dos símbolos do sepultamento dos anos de chumbo e da reconstrução da democracia. Já Maluf era o aliado dos militares, andava de mãos dadas com os reacionários. Em política, porém, não vigora muito a regra de "cada um nos seu quadrado". As conversas e as misturas acontecem com maior liberdade do que se possa imaginar. O livro "Ditadura Acabada", quinto de uma série sobre o tema, produzida com requinte de apuração jornalística e pesquisa histórica por Elio Gaspari, resgata muito da política como ela é, principalmente no topo da cadeia alimentar, longe do radicalismo e que se digladiam os militantes. O trecho abaixo é elucidativo: "Apesar da de...

SAQUEADORES DE BEIRA DE ESTRADA

Ainda criança eu ouvia a história de um tio emprestado que ficou embaixo de um barranco na BR 101. Ele viajava de ônibus, quando houve um deslizamento e o veículo foi soterrado. Entre mortos e feridos, meu tio permaneceu horas sob a lama, apenas com o braço esquerdo descoberto. Alguém se aproximou e, em vez de tentar salvar aquele passageiro, tirou-lhe sorrateiramente o relógio e deixou a vítima ali, à própria sorte. Felizmente, outros vieram depois e o salvaram. Esse caso de família me vem à mente ao ler as notícias sobre a roubalheira que se cometia na Emasa. Não apenas a empresa, como também a cidade se assemelha hoje a alguém que agoniza, o que é trágico. Mas não há definição que traduza o asco que a gente sente do cara que leva o relógio. E o caso presente é ainda mais grave, porque "os caras" são os próprios responsáveis pela vida do passageiro. Itabuna municipalizou seu serviço de abastecimento de água e saneamento há 27 anos. Desde então, houve poucos investimento...

DIVAGANDO À NOITE

A vida precisa de percepção e de poesia. Aliás, poesia é percepção, é ler o mundo e as coisas com propriedade. Muito bom ver que há, de fato, "vida inteligente" na televisão. Não exatamente em altas horas da madrugada, mas em meia hora de poesia e prosa, com Caetano e Bethânia falando de Clarice Lispector. A ucraniana que expandiu os limites da língua portuguesa. Para encerrar, um excelente texto do arquiteto Paulo Ormindo sobre a movimentação de classes sociais nos últimos 13 anos. Combateu-se a miséria sem mexer nas estruturas; os pobres descobriram as maravilhas da sociedade de consumo e as agruras do crediário; o carrinho de cachorro quente foi atropelado pelo food truck; a classe média se viu achatada e os ricos, como de praxe, ficaram mais ricos. O amanhã não traz boas expectativas e há grandes chances de que o sono não seja alentador. Paulo Ormindo é bacana, mas é melhor ler Clarice. Não para fugir da realidade, mas para percebê-la de outras maneiras.