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O que comove mais

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Como se pode classificar a atual pandemia? Tragédia? Hecatombe? Pesadelo? Genocídio? Talvez não haja nome possível para algo tão hediondo, que já matou, até o momento em que este texto é redigido, cerca de 600 mil pessoas em todo o planeta. Quase 77 mil no Brasil! Nada que já sofremos se compara a tamanha dor. São vidas e mais vidas indo embora, seres humanos que padecem em hospitais, a maioria destes sem estrutura para acolher pacientes em estado grave. Cenário de caos instalado em um mundo, e especialmente a um país, que aprende tarde demais a necessidade de uma saúde pública decente para todos, e não apenas para os que podem pagar.  Tão triste quanto as mortes, é perceber que elas já não comovem tanto. São números e mais números, em uma contabilidade macabra, fria e cruel. Em meio aos óbitos, muitos se preocupam justificadamente com a situação econômica. Mas é estranho que muitos desses pretendam desassociar preservação de vidas humanas e salvação de negócios, quando está clara ...

Nessa hora

Na tela, o ministro da Economia e o filho 01 do presidente, aquele que cultiva laranjas. Comemoram a aprovação da reforma da Previdência pelo Senado. Nas praias do Nordeste, o óleo se espalha. Desastre ambiental sem precedentes, que não sensibiliza um governo de estranhas prioridades. Na Amazônia, é o fogo que destrói tudo. O presidente não tem compromisso com a vida e trata o meio ambiente com desprezo. Triste Brasil.

ITABUNA EM ESTADO DE "CUMA"

Aos incautos, vou logo explicando: "Cuma"  é o apelido do atual prefeito de Itabuna, Fernando Gomes de Oliveira, 77 anos, que há poucos dias iniciou seu quinto mandato à frente desta outrora pujante cidade. Cuma governou pela primeira vez na década de 70, depois de ter sido secretário de Administração do então prefeito José Oduque Teixeira. Carismático, sucedeu o chefe e ganhou fama de tocador de obras. Possivelmente, teve a carreira política embalada em uma época de dinheiro farto e controles frouxos. A Itabuna pré-vassoura-de-bruxa era outra e as regras eram diferentes. Cuma começou no velho MDB, fazendo oposição ao manda-chuva Antônio Carlos Magalhães, a quem chamava de "trocolento". Como político, desrespeitava o vernáculo e os acólitos, a quem distribuía esporro no atacado. Fazia questão de dizer que era mais inteligente do que os doutores que o cercavam. Na década de 80, novamente prefeito, Cuma se aliou ao "trocolento" e se beneficiou com a má...

O SORRISO DA ESPERANÇA

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O arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, deixou a vida terrena na manhã desta quarta-feira, 14 de dezembro. Tinha 95 anos e uma biografia cuja maior riqueza foi a dedicação aos mais pobres, aos doentes, idosos e sofredores em geral. Dom Paulo teve participação importante no surgimento das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, que traduziam bem sua ação religiosa voltada aos mais humildes. Ali também se formou o braço religioso e sonhador de uma sigla que então carregava uma aura de transformação da sociedade: o Partido dos Trabalhadores. Não é razoável afirmar que o sonho de Dom Paulo morreu antes dele, porque os sonhos não morrem. Eles têm uma existência perene, que sobrevivem às frustrações circunstanciais. No máximo, ficam latentes por um tempo, para se reconstruir  mais adiante. Em nota, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que teve Dom Paulo como reitor, afirma que "a esperança perdeu seu maior sorriso". Por esses dias, não têm sid...

A raiz do problema

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Até pouco tempo o Brasil debatia com muito vigor a redução da maioridade penal, tema que tem tudo para voltar à tona em breve, considerando-se a direção dos ventos políticos. Não é segredo que a sociedade, atemorizada pelo número e perversidade dos crimes cometidos por adolescentes, defende tenazmente a punibilidade aplicada aos maiores de 16, em vez dos atuais 18. As discussões sobre o assunto normalmente enveredam-se para a questão da capacidade do jovem de 16 de entender o caráter ilícito de sua conduta e, consequentemente, da possibilidade de responder pela mesma. Parece claro que os adolescentes possuem tal consciência e, sob esse prisma, devem, evidentemente ser penalmente responsabilizados. O que é de se estranhar, no entanto, é o descompasso entre o desejo da punição e a doutrina da proteção integral, que é o cerne do direito brasileiro no que diz respeito à questão das crianças e adolescentes. Um sistema que encontra respaldo no artigo 227 da Constituição Federal, o qual a...

O velho, o novo e as frustrações

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É provável que muitos ainda não tenham compreendido a mensagem das urnas nestas eleições de 2016, nas quais os resultados surpreenderam até mesmo quem baseou suas estratégias em pesquisas qualitativas, aquelas que aferem com maior precisão os humores do eleitorado. Não se descarte um equívoco na interpretação desses dados. Desde 2013, cresce na sociedade uma rejeição aos políticos, que parece ser mais de ordem objetiva que subjetiva. Não é exatamente contra o que ele são (não obstante o cinismo da maioria nos irrite), mas contra o que (não) produzem. Não era pelos 20 centavos, mas pela falta de saúde, educação, segurança, transporte público de qualidade, ruas bem cuidadas. As qualitativas, naturalmente, detectaram esse movimento de insatisfação da sociedade, que muitos políticos tentaram capitalizar, combatendo no discurso uma tal “velha política” , mas em muitos casos sem conseguir se apresentar com as qualidades esperadas pelo eleitor. Ele não quer o novo pelo novo, m...

Pensando sobre as eleições

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Certo ou errado, o povo quer ter o direito de escolher por seus próprios critérios. Dá topada, se arrepende, começa de novo, mas repele a ideia de ser dirigido ou manipulado. Quando alguém desrespeita essa regra, com certeza enfrentará antipatia e não será bem aceito. Isso ocorre na política, com a repulsa aos golpistas de toda ordem. Se o regime é democrático, respeite-se o direito de escolher. Não cabe a um dos contendores adiantar-se ao sufrágio e buscar meios heterodoxos para eliminar a disputa. Se obtiver sucesso no intento, ainda que vitorioso, será visto com desconfiança e como alguém que não tem apreço à democracia. Mas, se as artimanhas não vingarem, o povo tende a externar toda a sua repulsa com o poder do voto. É o que observamos neste momento.