O velho, o novo e as frustrações



É provável que muitos ainda não tenham compreendido a mensagem das urnas nestas eleições de 2016, nas quais os resultados surpreenderam até mesmo quem baseou suas estratégias em pesquisas qualitativas, aquelas que aferem com maior precisão os humores do eleitorado. Não se descarte um equívoco na interpretação desses dados.

Desde 2013, cresce na sociedade uma rejeição aos políticos, que parece ser mais de ordem objetiva que subjetiva. Não é exatamente contra o que ele são (não obstante o cinismo da maioria nos irrite), mas contra o que (não) produzem. Não era pelos 20 centavos, mas pela falta de saúde, educação, segurança, transporte público de qualidade, ruas bem cuidadas.

As qualitativas, naturalmente, detectaram esse movimento de insatisfação da sociedade, que muitos políticos tentaram capitalizar, combatendo no discurso uma tal “velha política”, mas em muitos casos sem conseguir se apresentar com as qualidades esperadas pelo eleitor. Ele não quer o novo pelo novo, mas sim algo com consistência, uma mudança efetiva.

Analise-se o caso de Itabuna, onde o vencedor das eleições (ainda sub júdice) foi um homem de 77 anos, que já governou a cidade por quatro vezes. Segundo os “experts”, esse era o concorrente menos viável diante de um cenário em que a renovação aparecia como a maior demanda. Só não entenderam que a mudança desejada era objetiva, embora mesmo por esse critério – em uma análise mais cuidadosa – o candidato vetusto tivesse pés de barro.

O velhinho que cantava no programa eleitoral, sugerindo que foram chamá-lo para resolver os problemas dos quais os ex-prefeitos não conseguiram dar conta, tinha bom recall. Em suas duas primeiras administrações, em meados da década de 70 e final dos anos 80 / início dos 90, realizou obras importantes o suficiente para fazer com que até hoje ele seja lembrado como um bom gestor. Uma imagem positiva, cuja força consegue ofuscar tudo de negativo que ele produziu em suas últimas gestões (97-2000 e 2005-2008). Um caso típico de memória seletiva do cidadão-eleitor-contribuinte.

Para completar, o “novo” em Itabuna chegou antes, em 2012, com a eleição do “reverendo” Claudevane Leite. Ele, que se apresentou como a mudança, frustrou a população e a deixou vacinada. Mangabeira encarnou o mesmo espírito em 2016 e conquistou 26% do eleitorado, mas 32% preferiram o “velho”, aquele que veem como o mais propício para lhes satisfazer as demandas objetivas.

Ou, para simplificar, talvez o eleitor tenha preferido errar conscientemente do que acreditar mais uma vez e dar com os burros n’água. A frustração produz tais fenômenos.

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