GETÚLIO ABRIU MÃO DA VIDA, LULA PERDEU A ALMA

As comparações entre os ex-presidentes Getúlio Vargas e Lula são corriqueiras. Segundo o escritor Lira Neto, que escreveu a biografia do primeiro, são eles os dois maiores líderes da história do Brasil, e os feitos dos respectivos governos sustentam a afirmação.

Getúlio criou a Petrobras, a Eletrobras, a Companhia Siderúrgica Nacional. Iniciou a mudança do perfil do que era então um país agrário e atrasado para uma nação industrializada e urbana. Lula tem na área social, com o combate à pobreza, sua principal marca. Em seu governo, mais de 30% dos brasileiros saíram da parte de baixo da linha da miséria.

Getúlio chegou ao poder em 1930, por meio de um golpe de estado. Era um período de instabilidade política e pouco espaço para a democracia, salvo por um breve momento em que, nos idos de 1934, foi promulgada uma Constituição que acolheu direitos sociais importantes, mas os ventos democráticos não sopraram por muito tempo.

Em 1937, veio o Estado Novo, com uma Constituição outorgada, de inspiração fascista. Getúlio governou com mão de ferro e esmagou os opositores. Por essa época, a judia Olga Benário Prestes, grávida, foi despachada do Brasil para um campo de concentração nazista na Alemanha, onde foi morta em uma câmara de gás.

Nesse primeiro momento, Vargas ficou no poder até 1945, quando, pressionado pelos militares, acabou cedendo e permitindo a realização de eleições. Venceu o insípido general Eurico Gaspar Dutra, que comandou um governo caótico, com hiperinflação e desemprego, fazendo com que o povo desejasse a volta de Getúlio.

Em 1950, o gaúcho retorna ao governo, como se disse à época, "nos braços do povo". Mas Getúlio não tinha mais a velha mão de ferro, exercendo seu mandato sob vigilância rigorosa do Congresso, com a oposição seguindo a batuta da "Banda de Música da UDN" e da imprensa, onde vociferava contra sua corte um poderoso inimigo, o eloquente Carlos Lacerda, a quem chamavam no Palácio do Catete de "O Corvo". Isto sem falar nos militares, reunidos em torno do brigadeiro Eduardo Gomes, que mantinham Getúlio com o pescoço sob afiada lâmina.


O final desse drama todos sabem. O primeiro grande estadista brasileiro suicidou-se, perdendo a vida para "entrar na história", mas pouco se debate sobre as falhas cometidas pelo então presidente, sobretudo sua notória dificuldade em conviver com a oposição e aceitar as regras do jogo democrático.  Getúlio, apesar de sua decantada sagacidade, demonstrou enorme fragilidade política quando, eleito senador após deixar a presidência, teve um mandato medíocre.

Lula, com quem comparam o gaúcho, teve méritos de uma gestão voltada para o social, permitindo que milhões de brasileiros tivessem acesso a direitos historicamente negados. Em um país onde comer três vezes ao dia era privilégio de alguns, não é algo que possa ser menosprezado. Entre outras realizações de sua gestão, destacam-se a criação de 15 milhões de empregos formais, a queda da concentração de renda (segundo o índice Gini), o aumento das reservas internacionais do Brasil etc.

Logo, não são os feitos de Lula que comprometem sua imagem. O ex-presidente, infelizmente, é alvo de investigações e bombardeio da mídia por suspeita de envolvimento em sabe-se lá quantas negociatas, relacionamento espúrio com empreiteiras, tráfico de influência e o escambau. Pelo que se apura, havia uma máquina abastecida pelo dinheiro público, por meio de obras e serviços superfaturados, operada por empreiteiras, que desviou bilhões do erário.

Ao optar pelo chamado presidencialismo de coalizão, o PT enfiou o pé na jaca para alimentar o fisiologismo e, possivelmente, aproveitou para refestelar-se. Há quem acredite que exatamente aí o partido firmou um tenebroso pacto com o diabo, mas este, como se sabe, costuma exigir a alma daqueles com quem negocia.

 Talvez o ponto-chave da comparação entre Lula e Getúlio esteja exatamente aí: enquanto o primeiro perdeu a alma para garantir a vida do PT no governo, o segundo abriu mão da vida na esperança de preservar a alma e entrar para a história.

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