BRASIL, QUAL O SEU OLHAR?

Há muito eu penso que o Brasil é um país onde tudo conspira para as coisas darem errado. A corrupção desenfreada e orgânica responde em grande parte por esta constatação, pois o dinheiro público que irriga contas indevidas é o mesmo que falta para melhorar o salário do professor, a estrutura das escolas, oferecer um serviço de saúde decente e assegurar oportunidades melhores aos jovens.

Todos os direitos sociais assegurados pelo artigo 6º da Constituição Federal são permanentemente sabotados, não apenas pela roubalheira, mas por uma visão deturpada de sociedade, que parece condescendente com as mazelas. A imagem do brasileiro que ri diante dos problemas não disfarça a condição de povo que olha no espelho, mas não consegue se enxergar como personagem do drama. É como se fôssemos todos meros espectadores.

Nesse cenário, os corruptos, violentos, intolerantes, pais omissos ou motoristas imprudentes são sempre os outros. De dedo em riste os apontamos, pois não nos reconhecemos como atores do espetáculo.É por essa falta de autocrítica que os problemas se perpetuam.

O brasileiro que se admira da limpeza de cidades europeias é o mesmo que não se envergonha de descartar seu guardanapo no chão, ou atirar uma garrafa de água mineral pela janela do carro. Age como se não conseguisse associar sua pequena falta de educação à sujeira de nossas ruas. Vale o mesmo para as pequenas vantagens, as peixadas, o molhar a mão do guarda, o estacionar na vaga do deficiente...

Para boa parte de nosso povo esses gestos não têm nada a ver com a cultura da corrupção impregnada no Brasil. Nenhuma relação com o modo como vivemos ou o que priorizamos.

Talvez sejamos lenientes com as mazelas porque nos adaptamos, não só a elas, como às práticas indecorosas que as produzem e alimentam. Por isso, somente quando deixarmos de nos sentir plateia e nos entendermos como parte do espetáculo é que será possível vislumbrar alguma possibilidade de mudança.

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