Postagens

TERAPIA

Faz tempo que não ando aqui neste terreno de confidências, nesse divã onde o escrever é minha terapia. Sinto falta deste espaço, pois na ausência fica um acúmulo de pensamentos que acabam se misturando, como tralhas no quartinho da bagunça. E arrumar tudo dá muito trabalho, por isso preciso vir aqui mais vezes para organizar as gavetas. Enquanto opero soluções pessoais, acompanho dramas coletivos. Um amigo, razoavelmente calejado pela vida, costuma dizer que a primeira obrigação de todo homem é cuidar de si mesmo e dos seus. Ele fala isso sempre que se envolve em um debate sobre ideologia x interesses. Nesse campo, tenho aprendido, por experiência e observação, que o melhor caminho - como em tudo - é o equilíbrio.

NO ENTANTO, NÃO HÁ GALINHA EM MEU QUINTAL

Imagem
Raulzito não dava bola pra visita estranha na sala e, fingindo ignorá-la, passava a vista no jornal, onde lia notícias com as quais não se importava. Indignado, reclamava, bem ao seu estilo: "mas, no entanto, não há galinha em meu quintal". Quando falta o básico, é difícil transcender... O galinheiro do Brasil está à míngua, mas não faltam raposas. Às vésperas de um megaevento internacional, o país fica como o anfitrião que buscou arrumar a casa para receber visitas. Mandou pintar o imóvel, comprar novo aparelho de jantar, forrar o velho sofá da sala e consertar o assento do vaso sanitário, que estava solto. À chegada das visitas, muita ansiedade, a preocupação de receber bem e não passar vergonha. Mas é nesse momento que a dura realidade aparece: a parede tem infiltrações, os recursos para o novo aparelho de jantar foram usados na compra de canecas em uma loja de 1,99, o sofá foi forrado com pano de chita sobre as molas aparentes e o vaso sanitário está entupido... É pro...

TOMARA QUE DEUS SEJA BRASILEIRO

Imagem
Não é para agourar, mas os facínoras do Estado Islâmico têm tudo para ver o Brasil como a bola da vez. É um país que tenta a todo custo sublimar seu complexo de vira-latas e substituí-lo por uma megalomania que só o deixa mais vulnerável. Os arroubos nacionalistas dos militares renasceram justamente no "nunca antes na história desse país" de Luiz Inácio. Veio a Copa do Mundo com suas obras faraônicas e indecentemente superfaturadas e agora estamos às portas das Olimpíadas, à custa de cifras bilionárias em uma terra arrasada, sob um governo interino e com a crème de la crème da elite política e empresarial com medo de ser acordada às 6 da manhã por agentes da Federal. O Brasil é um país que teria tudo para dar certo, mas insiste em andar na contramão. Nada funciona a contento, os serviços públicos são indecentes, em contraste com a maior carga tributária do planeta. Diariamente, repetem-se as notícias de desvios, aditivos safados em obras públicas, licitações fraudadas...

A POLÍTICA COMO ELA É

Imagem
Quem estudou a história recente do Brasil sabe que, em 1985, nos estertores da ditadura militar, a presidência da república foi disputada por Tancredo Neves (PMDB) e Paulo Salim Maluf (PDS), via eleição indireta. No imaginário maniqueísta, Tancredo, que venceu, mas morreu antes de tomar posse, eternizou-se como um dos símbolos do sepultamento dos anos de chumbo e da reconstrução da democracia. Já Maluf era o aliado dos militares, andava de mãos dadas com os reacionários. Em política, porém, não vigora muito a regra de "cada um nos seu quadrado". As conversas e as misturas acontecem com maior liberdade do que se possa imaginar. O livro "Ditadura Acabada", quinto de uma série sobre o tema, produzida com requinte de apuração jornalística e pesquisa histórica por Elio Gaspari, resgata muito da política como ela é, principalmente no topo da cadeia alimentar, longe do radicalismo e que se digladiam os militantes. O trecho abaixo é elucidativo: "Apesar da de...

SAQUEADORES DE BEIRA DE ESTRADA

Ainda criança eu ouvia a história de um tio emprestado que ficou embaixo de um barranco na BR 101. Ele viajava de ônibus, quando houve um deslizamento e o veículo foi soterrado. Entre mortos e feridos, meu tio permaneceu horas sob a lama, apenas com o braço esquerdo descoberto. Alguém se aproximou e, em vez de tentar salvar aquele passageiro, tirou-lhe sorrateiramente o relógio e deixou a vítima ali, à própria sorte. Felizmente, outros vieram depois e o salvaram. Esse caso de família me vem à mente ao ler as notícias sobre a roubalheira que se cometia na Emasa. Não apenas a empresa, como também a cidade se assemelha hoje a alguém que agoniza, o que é trágico. Mas não há definição que traduza o asco que a gente sente do cara que leva o relógio. E o caso presente é ainda mais grave, porque "os caras" são os próprios responsáveis pela vida do passageiro. Itabuna municipalizou seu serviço de abastecimento de água e saneamento há 27 anos. Desde então, houve poucos investimento...

DIVAGANDO À NOITE

A vida precisa de percepção e de poesia. Aliás, poesia é percepção, é ler o mundo e as coisas com propriedade. Muito bom ver que há, de fato, "vida inteligente" na televisão. Não exatamente em altas horas da madrugada, mas em meia hora de poesia e prosa, com Caetano e Bethânia falando de Clarice Lispector. A ucraniana que expandiu os limites da língua portuguesa. Para encerrar, um excelente texto do arquiteto Paulo Ormindo sobre a movimentação de classes sociais nos últimos 13 anos. Combateu-se a miséria sem mexer nas estruturas; os pobres descobriram as maravilhas da sociedade de consumo e as agruras do crediário; o carrinho de cachorro quente foi atropelado pelo food truck; a classe média se viu achatada e os ricos, como de praxe, ficaram mais ricos. O amanhã não traz boas expectativas e há grandes chances de que o sono não seja alentador. Paulo Ormindo é bacana, mas é melhor ler Clarice. Não para fugir da realidade, mas para percebê-la de outras maneiras.

O PAÍS SEM MÁSCARAS

Imagem
Nada de baianas estilizadas, mulatas rebolantes ou fitinhas do Senhor do Bonfim. Turista que chega ao Brasil nesses dias tormentosos pode ser recebido mais na linha do "a vida como ela é" e com faixas para intimidar gringo, tipo "Welcome to hell" . Diga-se de passagem, esta faixa foi apresentada por policiais cariocas, em protesto contra o atraso de seus salários. No Rio de Janeiro, que em poucos dias sediará as Olimpíadas, está bem assim. O Estado falido anuncia que as viaturas policiais poderão parar por falta de combustível. Em um hospital, bandidos resgatam perigoso traficante. Na Avenida Brasil, cidadãos são assassinados. Os ufanistas poderão atribuir tudo isso a um alarmismo, sabotagem ou, quiçá, ao sempre lembrado complexo de vira-lata. Mas mostrar ao mundo o Brasil de verdade é mais uma tentativa de provocar mudança pela vergonha de nos ver expostos tais como somos, com nossas feridas e deformações. O Brasil é um país belíssimo, com grande potencial,...